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  • Sítio Girassol

Clínica do Toque: A construção de um trabalho psicomotor e somático

Atualizado: 17 de out. de 2019

RESUMO


A Clínica do Toque é uma pesquisa clínica que vem sendo realizada há dois anos e meio por um grupo de terapeutas, sob supervisão de um psicomotricista, que se utiliza de um trabalho coletivo e/ou individual para criar uma prática e um campo teórico a partir do encontro com o(s) outro(s). A força desse trabalho psicomotor tem como base o vínculo transferencial que possibilita um “despertar” sensorial do corpo.


Em nosso laboratório de pesquisa, realizamos uma oficina por mês com clientes, supervisões mensais e grupos de estudos semanais com os terapeutas, além de duas maratonas por ano, onde o cliente tem a possibilidade de mergulhar num processo profundo de contato com seu corpo e suas sensações por meio do trabalho dos terapeutas. Diante do atual momento social, em que o externo demanda do corpo uma aceleração e uma fragmentação na maneira de sentir, a Clínica do Toque demarca um território onde a escuta se dá no micro, no sensível, na abertura dos poros pela respiração e na consciência da experiência de um vivido.


Diferentemente das técnicas de massagem, esse trabalho/estudo nos desafia a criar um outro lugar para o toque, não pré-concebido, nem subordinado a alguma técnica. Um espaço onde esse gesto de tocar não se aprisione às mãos, mas onde todo o corpo do terapeuta seja uma extensão de afetação em relação ao corpo do outro. Entram nesse jogo relacional o olhar, a palavra, o som da respiração e os ritmos e expressões que naquele momento são acionados e estão presentes. Nesse sentido, buscamos não a essência de um corpo, mas o que é essencial para que ele crie formas de pulsar a vida.


O toque, assim vivido, é mais do que uma ferramenta, é uma necessidade humana, é a possibilidade de contato e encontro, que só é possível quando o corpo permite uma abertura para receber. A respiração, o toque, o contato são da ordem do visceral.


Nesse texto, serão discutidas algumas questões que foram sendo avivadas durante esse tempo de prática e pesquisa, como: os fantasmas que a ideia de toque pode gerar no outro; as sutilezas das resistências do cliente; a construção de um corpo terapêutico que possa suportar - e dar suporte - às descargas somáticas do cliente; as condições do ambiente e do grupo que se formam nos trabalhos coletivos; e a preocupação com a integridade de cada um ao final da sessão realizada.


COMO VIVEMOS O TOQUE


Temos a clareza de que um trabalho que se intitula “Clínica do Toque” pode levar cada pessoa a vários lugares: alguns podem imaginar uma massagem, outros podem achar que vão viver algo totalmente novo, gerando medo e/ou curiosidade em relação ao que seu corpo irá viver. Recebemos pessoas que chegam das mais diferentes maneiras e de diversos lugares. O trabalho possui um formato terapêutico aberto, onde cada oficina propõe uma intervenção pontual, ou seja, não existe um compromisso de estarmos juntos novamente com aquele cliente. Mas, se desejado, o aprofundamento do trabalho pode ser realizado em encontros individuais com o terapeuta ou mesmo em grupo. Esta clínica não se propõe a ser um método, mas construiu um percurso próprio que abre espaço para que o cliente possa viver a intervenção com liberdade e expressão espontânea.

Geralmente iniciamos o trabalho de pé, em roda, onde cada um se apresenta. É um ponto interessante se pensarmos que a posição de pé é aquela em que nos sentimos mais confortáveis diante do outro, pois é com toda nossa camada superficial que estamos prontos para lidar com os desafios do cotidiano. Aqui sugerimos que os pés sintam o chão e os joelhos se afrouxem um pouco, o que pode ir ajudando a abrir espaço na sensação e na busca de movimentos que o corpo vai solicitando.


Aos poucos as consignas dadas pelos terapeutas em relação à respiração, aos pés e às pernas, às necessidades do corpo, às alavancas em grupo, em dupla e em trio vão estabelecendo uma relação com o outro corpo nos seus limites, flexibilidades e possibilidades de contato – que pode ser alcançada pelo olhar, pelo som e pelo movimento do corpo, entre outras manifestações.


Inicia-se então o vínculo simpático com o cliente por três vias:


Respiração

O fluxo dos atendimentos tem como um dos seus eixos a respiração, vista por nós como um canal possível de consciência das tensões, identificação das necessidades do corpo naquele momento e possibilidade de abertura de encontro com o outro ao estabelecer um vínculo transferencial. Considerando que, nos meios sociais, os barulhos do nosso corpo não são bem vistos, ampliar a respiração pode ser algo constrangedor, mas também libertador à medida que nos permitimos explorar esse espaço, num ambiente acolhedor e seguro. Assim, o grupo se constitui como uma grande célula pulsante em que cada movimento singular de som e expressão forma o corpo coletivo e afeta o grupo como um todo.


Olhar

O olhar é o contato da imagem de um corpo, uma maneira de acolhê-lo, de estabelecer uma via de empatia e reconhecimento. Por ser um contato muito primitivo, pode ser bem difícil para o cliente suportar o olhar do outro e, neste momento, o terapeuta precisa estar sensível e conectado para criar mecanismos de diminuição das defesas. Neste trabalho existe uma preocupação do terapeuta em trabalhar com a resistência e não gerando mais resistência.


Enraizamento do corpo do terapeuta

É enraizando bem o seu corpo que o terapeuta vai estabelecer com o cliente a sua presença no espaço de atendimento. A abertura de campo de contato com o cliente só é possível através da presença total do terapeuta, da maneira como ele se disponibiliza para aquela relação.


No primeiro momento, pelo olhar, respiração e presença, o terapeuta abre sua escuta para perceber qual o campo que se abre no corpo do outro. O cliente pode trazer algum desconforto ou pedido do seu próprio corpo e o terapeuta inicia assim o toque no seu cliente tentando localizar os pontos de tensão e descarga. Neste momento, dependendo da necessidade e da resistência do cliente, o terapeuta pode realizar o trabalho em pé ou sugerir que o cliente possa se entregar ao chão. Geralmente essa segunda opção é a mais aconselhável, tendo em vista que, em princípio, o contato do corpo inteiro no chão pode significar a possibilidade maior de integração desse corpo somático. O processo de entrega do corpo ao chão possibilita ainda o afrouxamento das tensões.


A capacidade sensível de escuta do terapeuta vai determinar em que momento olhar, falar, desviar o olhar, em que momento tocar e aonde tocar. O terapeuta aqui tem o objetivo de tentar construir um diálogo tônico, criando pequenas brechas de vínculo e contato.


O toque como uma pesquisa da clínica psicomotora tem a preocupação de integrar o sujeito, não de forma didática, mas de forma espontânea, onde proporcionamos a auto regulação pela qualidade da descarga, que pode ser vegetativa, tônica, muscular e sonora, entre outras. A qualidade da descarga do fluxo energético, apesar de ser pré-verbal, sem palavra, é transformadora. Quando vem a vibração, a alteração de cor ou a alteração de temperatura, por exemplo, mesmo sem a palavra, a descarga do campo favorece minimamente a dissolução de bloqueios, facilitando os fluxos orgânicos e vitais e integração.


O toque é essa intervenção do corpo para gerar a desorganização, a descarga. Interessa nesta clínica a descarga com qualidade, a descarga que vai corporificar. Quando o terapeuta está na conexão com o outro, esse contato ajuda o cliente a entender que essa descarga oferece um caminho. O terapeuta, assim, vai dando suporte, enquanto o indivíduo traz o sensorial, o campo da emoção, sem que necessariamente esteja associado à cognição.


A Clínica do Toque dá ao indivíduo, por meio de um vínculo somático, a possibilidade de criar uma descarga com qualidade para que seu corpo possa criar pulsação, ou seja, a capacidade de expansão e contração e, assim, regular o fluxo energético.


Geralmente trabalhamos no grupo com 50 minutos de intervenção do toque e 40 minutos de uma fala em grupo sobre o que foi vivido. Aqui, a palavra falada não é da lógica do racional, mas da lógica dos sentidos do corpo durante a dinâmica. O trabalho clínico investe na integração do corpo, explorando todas as camadas.


Quando o cliente troca no grupo sobre a sua experiência, ele corporifica a palavra, pois a linguagem fala de um lugar em que seu corpo transitou, atingindo uma camada mais profunda. Apesar de o trabalho no coletivo ser atravessado por muitos gestos dos outros corpos, o que cada cliente vai viver com seu terapeuta a partir dessas afecções é particular de cada um.


Nos trabalhos coletivos, os atravessamentos do ambiente do grupo também criam uma condição própria. Os sons, os gestos e o convite para cada cliente viver o toque com o seu terapeuta no grupo possibilita o contato com as diferenças e com outros parâmetros somáticos.


O desenvolvimento da sessão considera importante o processo de chegada e acolhimento das pessoas, a maneira como o grupo está chegando e as expressões corporais que o grupo apresenta.


No coletivo, há a possibilidade de se falar e realizar a análise do vivido. E os atravessamentos de cada um também atravessam o grupo. Por exemplo, o choro de alguém pode provocar o riso no outro e vice-versa. O grupo possui um movimento próprio, um campo onde o terapeuta precisa estar sensível às escutas. Observar essas nuances não é fácil e requer tempo de trabalho pessoal e clínico do terapeuta na Clínica do Toque.


Escuta, acolhimento e presença têm norteado o trabalho da Clínica do Toque durante esses 2 anos e meio, trazendo aos clientes micro-regulação por meio de um processo tônico e somático intenso, que vem abrindo a possibilidade de gerar potência ou, pelo menos, ajudando a abrir mais caminhos de saúde e conexão para cada um.


Texto organizado pela Clínica do Toque do Anthropos

Supervisão de Daniel L. Benchimol


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